Enzytop - Solução biodegradável para fossas e caixas de gordura
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
AVALIAÇÃO DOS EFEITOS DA PRÉ-HIDROLISE E DA BIODIGESTÃO
ANAEROBIA SOBRE O TRATAMENTO DE ÁGUA RESIDUÁRIA DE
ABATEDOURO DE AVES: PRODUÇÃO E POTENCIAL DE PRODUÇÃO DE
BIOGÁS.
Arley Borges de Morais Oliveira1; Ana Carolina Amorim Orrico2; Marco Antonio Previdelli Orrico Jr3; Natália da Silva Sunada1; Stanley Ribeiro Centurion4;
Mauricio Manarelli 4; André Henrique Nucci de Moura4; Romildo Marques Farias
UFGD/FCA – caixa postal 533,79.804-970 – Dourados – MS, E-mail: arleydeoliveira@hotmail.com
1) Aluno do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da UFGD. Bolsista CAPES e discente pesquisador
da FUNDECT; 2) Professora da UFGD, Faculdade de Ciências Agrárias e pesquisador da FUNDECT - email:
anaorrico@ufgd.edu.br; 3) Aluno do Programa de Pós- Graduação em Zootecnia da Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- Campos de Jaboticabal. Bolsista CNPq. 4) Aluno (a) do Curso de Zootecnia da UFGD
Resumo: Em virtude da necessidade de aumentar sua produção por área ocupada as
atividades agroindustriais têm proporcionado sérios problemas ambientais. Diante disso o
objetivo desse trabalho foi avaliar as produções de biogás e as reduções dos teores de ST e
SV durante a biodigestão anaeróbia da água residuária de abatedouro de aves em
biodigestores semi-contínuos manejados com 7, 14 e 21 dias de TRH e com a adição de
enzima lipolítica aos substratos nas concentrações de 0; 0,05; 0,10 e 0,15% do volume.
Para tanto foi utilizada água residuária de abatedouro avícola (sendo que este opera em
escala comercial), para o preparo dos substratos, adicionando-se doses crescentes de
enzimas lipolíticas (0, 0, 05, 0,1 e 0,15% do volume) e então efetuado o abastecimento de
biodigestores semi-contínuos, que foram manejados por 7, 14 e 21 dias de retenção
hidráulica. A influência dos TRH e da adição de enzima lipolítica aos substratos sobre o
processo de biodigestão anaeróbia foi avaliada por meio da produção de biogás e dos
potenciais de produção (por ST e SV adicionados e reduzidos). Os resultados encontrados
no presente experimento demonstraram que houve influência apenas dos TRHs usados
sobre as produções de biogás sendo que o TRH 7 obteve melhor performance ao atingir
valores médios de 35,7 L-1, porém para os potenciais de produção as diferentes doses de
enzimas usadas, demonstraram influencia sobre o potencial de produção de biogás por ST
e SV adicionados e ST e SV reduzidos. Dentre os tratamentos avaliados o que mostrou
melhor desempenho foi o TRH 14 com 0,10%, que apresentou valores de 1,75 L de biogás
g-1 SV. Dessa forma, o uso de lípase pode ser indicado para situações em que o sistema de
biodigestão se encontra subdimensionado ou em situações nas quais se pretende aumentar
a eficiência do sistema.
Palavras–chave: Avicultura, Tempo de retenção hidráulica, lipase
Introdução
A produção brasileira de frangos de corte tem se desenvolvido de maneira
satisfatória nos últimos anos e isso pode ser comprovado pelos números positivos
apresentados por este setor. De acordo com União Brasileira de Avicultura (2009), a
avicultura brasileira representa hoje 1,5% do PIB, gerando 5 milhões de empregos diretos
e indiretos e mais de US$ 7 bilhões apenas em exportação. Do total de carne de frango
produzida, 70% são destinados ao mercado interno, que atualmente responde por um
consumo médio de 39 kg por habilitante ao ano.
Esse aumento na cadeia produtiva pode vir a contribuir de forma marcante para o
incremento do impacto ambiental, caso não ocorra o interesse em inibir ou de criar
medidas que levem à minimização dos efeitos poluentes da atividade. Para isso, é
necessário, portanto, atentar-se ao correto planejamento e crescimento da atividade, para
que a mesma se desenvolva de forma ordenada, potencializando seus benefícios e
minimizando suas inconveniências.
O termo água residuária de abatedouro se aplica à água resultante dos
procedimentos realizados no processamento das carcaças dos animais, sendo que a
geração de água residuária em uma planta de abate tem inicio já na chegada dos animais
durante a aspersão de água sobre as gaiolas de transporte e lavagem das mesmas, sendo
que o resíduo resultante deste processo, em geral, é encaminhado direto para a rede de
esgoto (Salminen & Rintala, 2002). Durante o abate e o processamento é possível elencar
como principais pontos de geração de água residuária o processo de sangria, escaldagem,
evisceração, resfriamento das carcaças e preparação de produtos. Além disso, não se deve
descartar o uso na lavagem dos equipamentos e das instalações.
Esses efluentes são ricos em conteúdo orgânico, ocasionado principalmente pela
grande presença de lipídeos e proteínas, sendo os primeiros com maior efetividade. Os
lipídeos são compostos que causam grandes danos ao meio ambiente, como a formação de
filmes de óleo nas superfícies aquáticas, impedindo a difusão de oxigênio do ar para esse
meio, promovendo assim a mortandade da vida aquática, além da liberação de subprodutos
da sua degradação em meio anaeróbio como o CO2, CH4 e o N2O.
Desta forma, esse efluente quando submetido ao tratamento em lagoas de
estabilização, tende a gerar gases nocivos ao meio ambiente (de efeito estufa), que trazem
grande preocupação devido ao seu tempo de vida na atmosfera e seu potencial de
aquecimento global com relação ao CO2 Orrico Júnior et al. (2009). De acordo com a
UNFCCC (2006), a vida média desses gases na atmosfera seria de 12 anos para o CH4 e
120 anos para o N2O e os respectivos potenciais de aquecimento global iguais a 21 e 310,
ou seja, 21 e 310 vezes mais potentes que o CO2.
Os sistemas anaeróbios são bem adequados ao tratamento de águas residuais
provenientes de abatedouros, pois alcançam um alto grau de redução de sólidos diluídos e
com um custo significativamente menor quando comparado aos sistemas aeróbios e
químico-físicos. Além disso, substratos que favorecem a formação metano, podem ser
direcionados para a geração de combustível Johns (1995), por meio de sistemas
anaeróbios. O uso de modelos de reatores anaeróbios para fermentação de vários tipos de
resíduos tem sido cada vez mais adotado, sempre visando adaptar alguns modelos
anteriores e desenvolver sistemas mais eficientes para a geração de metano e redução de
DBO (demanda bioquímica de oxigênio) em seus efluentes Montgomery (2004). Todavia,
quando o resíduo se trata de água residuária de abatedouros tem sido relatado a inibição
(e/ou o retardamento) dos processos de digestão anaeróbia devido principalmente à
presença de óleos e gorduras, que podem ser considerados inibitórios por provocarem
mudanças adversas na população microbiana ou causarem a inibição do crescimento
bacteriano Chen et al. 2008; (Cammarota & Freire, 2006).
Estes efeitos têm levado ao surgimento de entraves para o desenvolvimento da
biodigestão anaeróbia da água residuária de abatedouros, como o a predição do adequado
TRH, para que o máximo de energia seja recuperado a partir do substrato em fermentação.
Dentro deste contexto a utilização de lipases no tratamento de efluentes com alto teor
lipídico é uma alternativa para os métodos tradicionais de tratamento.
Valladão et al. (2007) promoveram a biodigestão anaeróbia do efluente de
abatedouro de aves com crescentes níveis de inclusão de lípase (0; 0,1; 0,5 e 1,0% do
volume) na carga inicial e observaram que a eficiência de remoção de DQO (demanda
química de oxigênio), aumentou de 53 para 85%, quando se promoveu a adição de enzima
no nível de 0,1%, em comparação com a carga sem adição de enzima; nesta mesma
condição os autores ainda observaram que a produção de biogás saltou de 37 para 175 ml,
em 4 dias de avaliação. No entanto, os autores relatam que existem poucos estudos na
literatura que analisaram esta aplicação, especialmente em efluentes de abatedouros
Diante disso o objetivo desse trabalho foi avaliar as produções de biogás e as
reduções dos teores de ST e SV durante a biodigestão anaeróbia da água residuária de
abatedouro de aves em biodigestores semi-contínuos manejados com 7, 14 e 21 dias de
TRH e com a adição de enzima lipolítica aos substratos nas concentrações de 0; 0,05; 0,10
e 0,15% do volume.
Material e Métodos
O experimento foi conduzido no Laboratório de Aproveitamento dos Dejetos
Gerados na Produção Animal, na Faculdade de Ciências Agrárias, na Universidade
Federal da Grande Dourados, durante o segundo trimestre de 2010. Para tanto foi utilizada
água residuária de abatedouro avícola, situado nas dependências do município de
Dourados – MS, sendo que este opera em escala comercial. Para o preparo dos substratos
utilizou-se a água residuária coletada adicionando-se doses crescentes de enzimas
lipolíticas (0, 0, 05, 0,1 e 0,15% do volume) e então efetuado o abastecimento de
biodigestores semi-contínuos, que foram manejados por 7, 14 e 21 dias de retenção
hidráulica.
O abastecimento dos biodigestores semi-contínuos pode ser caracterizado como o
resíduo gerado durante o abate das aves nas etapas de: limpeza das carcaças, embalagem e
lavagem dos equipamentos. O resíduo será constituído por sangue, gordura, excrementos e
substâncias contidas no trato digestivo dos animais, principalmente. Os biodigestores
receberam cargas diárias, sendo que os volumes de carga foram determinados segundo o
tempo de retenção adotado. Os biodigestores foram monitorados durante 21 dias após
ocorrer à estabilização da produção do biogás, considerando-se cada condição de operação
(doses de enzima lipolítica e diferentes tempos de retenção). A influência dos TRH (7, 14
e 21) e da adição de enzima lipolítica (nas concentrações de 0, 0,05, 0,10 e 0,15% do
volume de carga diária) aos substratos sobre o processo de biodigestão anaeróbia foi
avaliada por meio da produção e dos potencial de produção (por ST e SV adicionados e
reduzidos).
As produções de biogás e a quantidade de ST e SV da entrada foram observadas
diariamente, sendo que a avaliação das reduções dos teores de SV e ST foi realizada
semanalmente durante todo experimento, no intuito de se verificar o comportamento de
degradação dos substratos ao longo do período. Os teores de ST e SV foram determinados
segundo metodologia descrita por APHA (1995). Os volumes de biogás produzidos
diariamente foram determinados medindo-se o deslocamento vertical dos gasômetros e
multiplicando-se pela área da seção transversal interna dos gasômetros. Após cada leitura
os gasômetros serão zerados utilizando-se o registro de descarga do biogás. A correção do
volume de biogás para as condições de 1 atm e 20oC foi efetuada com base no trabalho de
Caetano (1985).
Os potenciais de produção de biogás foram calculados utilizando-se os dados de
produção diária e as quantidades de substrato, de ST de SV adicionados nos biodigestores,
além das quantidades de ST e SV reduzidas durante o processo de biodigestão anaeróbia.
Os valores foram expressos em L de biogás por g de substrato, ou de ST e SV.
Os biodigestores utilizados foram do tipo tubular horizontal e de alimentação
semicontínua, pois este é um modelo mais indicado para sistemas onde há a produção
diária de resíduos. O substrato utilizado para o abastecimento dos biodigestores será o
mesmo para todos os tratamentos, alterando-se o nível de adição de enzima lipolítica e o
volume da carga, em função do tempo de retenção, ou seja, considerando-se a capacidade
média de 26,06 litros para os biodigestores e período de retenção de 7 dias, efetuar-se-á
carga diária de 3,7 litros de substrato.
O delineamento utilizado foi o inteiramente casualizado com parcela subdividida
no tempo, sendo que cada repetição foi composta pelos dados médios das semanas após a
estabilização dos biodigestores, ou seja, a primeira repetição foi os dados médios da
primeira semana e assim sucessivamente até a terceira semana. O efeito do período foi
corrigido pelo delineamento de forma que possa ser observada a interferência das enzimas
e do TRH nos resultados. As médias dos tratamentos serão comparadas entre si através do
teste de TUKEY, ao nível de 5% de probabilidade.
Os resultados encontrados no presente experimento demonstraram que houve
influência apenas dos TRHs utilizados sobre as produções de biogás, o que possivelmente
ocorreu em virtude dos volumes de carga adicionados diariamente, que foram menores
conforme se aumentou o TRH, ocasionado assim uma redução proporcional a quantidade
de ST adicionada aos biodigestores. Porém os resultados encontrados para das diferentes
doses de enzimas usadas, demonstraram influencia sobre o potencial de produção de
biogás por ST e SV adicionados e ST e SV reduzidos, esse resultado já era esperado, pois
de acordo com Rosa et al. (2009) e Mendes et al, (2005), o tratamento de efluentes de
abatedouros com a adição de lipases, auxilia na etapa inicial de degradação, aumentando
consideravelmente a eficiência da remoção de matéria orgânica durante o processo de
biodigestão. Sendo assim o nível 0,05% foi o que obteve menor valor (P<0,05) de
produção de biogás quando comparado com os níveis 0,10 e 0,15 que não diferiram entre
si. Estes valores também indicam que a adição de 0,15% de lípase não contribuiu para que
houvesse um incremento da produção alcançada pelos níveis anteriores, que foi de 35,7
para o nível 0,05% sobre o nível 0,0% (testemunha) e 39,2 para o nível de 0,10% sobre o
anterior.
Os resultados encontrados no presente trabalho confirmam sugestões feitas por
Dors (2006) que ao avaliar lípases de duas fontes diferentes, sendo elas lipase pancreatina
(LKM), produzida pela empreza Kin Master / RS e lipase pancreatina (LNU), produzida
pela empresa Nuclear / SP em concentrações de enzimas que foram de 0,10% p/v a 0,35%.
Neste trabalho a autora concluiu que não foi possível observar variação consistente da
velocidade de biodegradação, indicando que a concentração de enzima não interferiu
significativamente na velocidade de remoção da matéria orgânica. Dessa forma, a autora
relata que seriam interessantes novas pesquisas com relação às diferentes concentrações,
pois pode-se, seguir os estudos diminuindo a concentração de enzimas, promovendo a
redução do custo do processo.
Os valores encontrados no presente experimento para o tratamento 0,0% foram
semelhantes aos encontrados por (Ogejo & Li, 2010), ao submeterem água residuária de
abatedouro de perus ao processo de biodigestão anaeróbia com um TRH de 5 dias, onde
verificaram um potencial de produção de 0,8 L g-1 SV. No presente trabalho não houve
diferença significativa entre os TRH 7 e 21, sendo que o TRH de 14 dias foi o que
proporcionou melhores resultados, o que indica que o uso de um TRH acima de 14 dias
seria desnecessário e inviável.
Sendo assim os dados obtidos mostraram que os melhores resultados foram obtidos
no TRH 14 com a adição de 0,10% da carga diária, onde pode se alcançar maior produção
de biogás.
Conclusões
O uso de pré-tratamento através da adição de lipase foi eficiente para aumentar a
produção de biogás dos biodigestores semi-continuos alimentados com água residuária de
abatedouro de aves. Dessa forma, o uso de lípase pode ser indicado para situações em que
o sistema de biodigestão se encontra subdimensionado ou em situações nas quais se
pretende aumentar a eficiência do sistema.
Biotratamento para Redução do Teor
de Lipídeos Presentes em Efluentes das Indústrias de Produtos Lácteos
Adriano A. Mendes*, Heizir F. de Castro
Laboratório de Biocatálise,
Departamento de Engenharia Química
Faculdade de Engenharia
Química de Lorena, Caixa Postal 116, 12.606-970, Lorena-SP
*E-mail: adriano.a.mendes@dequi.faenquil.br
Resumo: Preparações
de lipases de procedência nacional (pancreatina Kin Master-LKM) e importada
(pancreática Sigma, Tipo II-LPP) foram utilizadas na hidrólise de óleos e gorduras
presentes em soro de queijo. Diferentes condições experimentais foram testadas
para verificar a influência da
concentração do agente emulsificante, íons cálcio e ajuste de pH na formação de
ácidos graxos. As preparações enzimáticas apresentaram desempenhos bastante
similares com formação máxima de ácidos graxos nos tratamentos efetuados numa
concentração enzimática de 3 mg/mL, adição de agente emulsificante 3% p/v,
ajuste de pH do meio reacional com solução NaOH 1M e ausência de íons cálcio.
Nas amostras tratadas enzimaticamente foram ainda determinados os teores de
interesse do processo, incluindo: demanda química de oxigênio, teores de
proteína e glicerol. A preparação enzimática disponível no mercado nacional
ofereceu melhor custo/benefício.
Palavras
chave: lipases, efluentes, produtos lácteos, tratamento enzimático, hidrólise.
1.
INTRODUÇÃO
Os laticínios representam um importante
setor da indústria alimentícia, tanto do ponto de vista econômico quanto
social. Entretanto, considerando o grande número de empresas que lançam seus
efluentes sem nenhum tipo de tratamento nos cursos d’água, a contribuição
dessas indústrias, em termos de poluição hídrica, principalmente com relação à
carga orgânica, é bastante significativa. O problema agrava-se se for
considerado que 90% dos laticínios, em funcionamento, são de pequeno e médio
portes, não possuindo quadro qualificado para lidar com as mudanças necessárias
à implementação de tecnologias limpas e com a operação de sistemas de
tratamento de efluentes.
O efluente gerado, pelos laticínios, na
manufatura de leite, contém uma Demanda Química de Oxigênio (DQO) em torno de
3000 mg/L. Em setores, onde há uma grande produção de queijos e derivados, o
valor de DQO é superior a 50000 mg/L (Gavala et al., 1999). Desse montante, o teor de lipídeos é superior a 100
mg/L (Hwu et al., 1998). A
acumulação, desses compostos, causa problema na digestão anaeróbia de
efluentes, como toxicidade a microorganismos acetogênicos e metanogênicos
(Hanaki et al., 1981), formação de
espumas, devido ao acúmulo de ácidos graxos não biodegradados (Salminen e
Rintala, 2002) e decréscimo da concentração de trifosfato de adenosina (ATP)
(Hanaki et al., 1981; Perle et al., 1995).
Os
lipídeos impedem a adsorção de ácidos graxos na superfície celular causando
flotação da biomassa e impedindo a formação de grânulos de lodo em reatores
anaeróbios do tipo UASB (Gavala et al.,
1999; Hwu et al., 1998). A flotação
do lodo é decorrente da dificuldade de liberação de gases produzidos na
digestão anaeróbia (Petruy e Lettinga, 1997).
A biodegradação de óleos e gorduras, em compostos mais simples, consiste em
utilizar lipases para promover a reação de hidrólise por via seqüencial dos
grupos acila no glicerídeo (Haraldsson,
1991).
Lipases
(triacilglicerol acil hidrolases, E.C.3.1.1.3) compreendem um grupo de enzimas
hidrolíticas que atuam na interface orgânica-aquosa, catalisando a hidrólise de
ligações éster-carboxílicas, presentes em acilgliceróis e podendo a reação
inversa (síntese) ocorrer em ambientes pobres em água (Saxena et al., 2003). As lipases podem ser
classificadas como régio-específicas e não específicas, ambas de grande
interesse para o tratamento de efluentes com alto teor de lipídeos (Saxena et al., 2003). As lipases específicas
hidrolisam ácidos graxos específicos, como é o caso das lipases de fonte animal
que hidrolisam ácidos graxos na posição 1,3 (Benzonana e Desnuelle, 1965). Esse
tipo de tratamento apresenta algumas
vantagens, tais como a especificidade que permite controlar os produtos, o que
leva a um aumento dos rendimentos pela não-geração de subprodutos
tóxicos, condições moderadas de operação,
redução do custo em termos de energia e de equipamentos tornando este
processo atrativo sob o ponto de vista ambiental (Masse et al., 2001).
A digestão anaeróbia destes rejeitos é um
processo lento, tendo como etapa limitante à liberação de ácidos graxos pelos
microrganismos específicos com atividade lipolítica (Perle et al., 1995). A utilização de um pré-tratamento enzimático mostra ser
uma técnica bastante promissora na redução do tempo de retenção hidráulica,
deste efluente, em lagoas de estabilização (Leal et al., 2002).
O
principal objetivo deste trabalho foi estudar a redução do teor de gordura de
efluentes de indústrias de produtos lácteos tratados com preparações de lipases
pancreáticas de procedência nacional, lipase LKM e estrangeira, lipase LPP. O
soro de queijo foi usado como substrato representativo para determinar a
influência das variáveis na hidrólise dos lipídeos presentes em efluentes de
indústria de produtos lácteos.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
2.1. Materiais
Foram utilizadas preparações de
lipases comerciais de origem animal, pancreática (Tipo II) adquirida da empresa Sigma Co (EUA)
e pancreatina 6NF gentilmente fornecida pela empresa Kin Master (RS). O substrato utilizado, como
efluente, foi o soro de leite gerado na produção de queijo tipo Minas no
Laboratório de Biocatálise/ FAENQUIL. O soro foi guardado em recipientes de
plásticos de 1,5 litros limpos não esterilizados e armazenados em freezer a 0°C, para conservação das suas características. Todos
os reagentes empregados foram de grau analítico.
2.2.Testes de Hidrólise com as
Preparações de Lipase
O método consistiu no monitoramento da
reação de hidrólise, medindo-se a produção de ácidos graxos, em intervalos de
tempo definidos, num período total de 24 h. Parâmetros reacionais, tais como pH
e temperatura foram fixados tomando por base resultados anteriormente obtidos
referentes a caracterização bioquímica dessas preparações enzimáticas (Gomes et al., 2002). O substrato foi preparado
pela adição direta do agente emulsificante ao efluente bruto. Em balões de
fundo redondo de 125 mL foram adicionados emulsões preparadas com 50 g do
efluente, massas apropriadas de goma arábica (3-7% m/v) e íons cálcio (0-0,11
g). O pH do meio reacional foi ajustado pela adição de solução de NaOH 1M ou
NaHCO3, para manter as condições operacionais mais próximas daquelas
encontradas industrialmente, conforme mostrado na Tabela 1. Com exceção dos
experimentos 5 A, B (controle) sem adição de solução enzimática, todos os
tratamentos foram efetuados empregando uma concentração de enzima de 3 mg/mL.
Os balões foram incubados por um
período máximo de 24 horas numa temperatura de 40°C, em banho de silicone, com agitação magnética (600
rpm). Periodicamente foram retiradas amostras de 2 g do meio reacional e o teor
de ácido graxo quantificado por titulação com KOH 0,02 N. O ensaio com maior formação de ácidos graxos,
foram determinadas os teores de glicerol, proteína e Demanda Química de
Oxigênio (DQO).
Tabela 1. Ensaios da hidrólise do efluente
empregando as preparações enzimáticas.
|
LKM
|
LPP
|
[E]
(%)
|
Goma
(%)
|
CaCl2
(g)
|
Ajuste
de pH
|
|
1 A
|
1 B
|
0,3
|
3
|
0
|
Ausente
|
|
2 A
|
2 B
|
0,3
|
3
|
0
|
Presente1
|
|
3 A
|
3 B
|
0,3
|
7
|
0
|
Ausente
|
|
4 A
|
4 B
|
0,3
|
7
|
0
|
Presente2
|
|
5 A
|
5 B
|
0
|
7
|
0
|
Presente2
|
|
6 A
|
6 B
|
0,3
|
7
|
0
|
Presente1
|
|
7 A
|
7 B
|
0,3
|
3
|
0,11
|
Ausente
|
|
8 A
|
8 B
|
0,3
|
7
|
0,11
|
Presente1
|
LKM- Lipase pancreatina Kin Master
LPP- Lipase pancreática Sigma
1-Ajuste de pH com solução NaOH
1M
2-Ajuste de pH com NaHCO3
2.3. Análises
O teor de sólidos totais foi
determinado por evaporação do efluente com o auxílio de um rotoevaporador. O
índice de acidez, índice de saponificação e porcentagem de ácidos graxos livres
foram determinados segundo metodologia descrita por Moretto e Fett (1998). O pH
foi determinado com o auxílio do pHmetro. Densidade foi determinada com o
auxílio de um picnômetro. A demanda química de oxigênio (DQO) foi determinada
pelo método descrito por APHA (1992). O teor de proteínas foi determinado pelo
método de Bradford (Bradford, 1976). A concentração de glicerol foi determinada
segundo metodologia descrita por Cocks e Van Rede (1966). A concentração de
ácidos graxos formados foi calculada pela equação1.
onde:
MKOH= Concentração Molar da solução de KOH; VKOH= Volume
gasto de KOH na titulação (mL); Va= Volume da amostra (mL)
3. RESULTADOS E
DISCUSSÕES
3.1. Caracterização do efluente
O
soro do leite, utilizado como efluente das indústrias de derivados lácteos, foi
caracterizado conforme resultados mostrados na Tabela 2.
Tabela 2: Parâmetros de caracterização
do soro de leite
.
|
Parâmetros
|
Resultados
|
|
Sólidos Totais
(g/L)
|
7,53
|
|
Índice de
Acidez
|
1,33
|
|
Índice de
Saponificação
|
60,2
|
|
pH
|
6,41
|
|
Densidade (g/cm3)
|
1,02
|
|
Ácidos Graxos
Livres (%)
|
0,63
|
|
Proteínas
(mg/mL)
|
1,43
|
|
Glicerol (%)
|
2,79
|
3.2. Efluente Tratado com Lipases
As Figuras 1 e 2 mostram a
concentração de ácidos graxos formados pela hidrólise do efluente por meio das
lipases pancreáticas LKM (Kin Master) e LPP (Sigma) após 24 h de tratamento.
Para ambas preparações (numa concentração de 3mg/mL) a maior porcentagem de
hidrólise de óleos e gorduras presentes no efluente foram obtidas nas seguintes
condições experimentais: 3% (m/v) de agente emulsificante, ajuste de pH com
solução de NaOH 1M e ausência de íons cálcio (ensaios 2 A, B). Os experimentos
realizados com ajuste de pH com NaHCO3 (4 A, B e 5 A, B), não
apresentaram resultados satisfatórios. O pH do meio reacional elevou-se
rapidamente a valores superiores a 9,0, afastando do pH ótimo de atuação das
preparações enzimáticas (LPP=7,5 e LKM=8,0), reduzindo significativamente a
atividade lipolítica das lipases. A quantidade de ácido graxo eventualmente
formado pela hidrólise enzimática foi similar ao do controle, sendo computado
ao final do tratamento enzimático concentrações de ácidos graxos próximos a
zero. Para detectar possíveis influências do substrato (soro) ou NaHCO3,
foi realizada a hidrólise do azeite de oliva a 20% (v/v) com concentração de
goma arábica a 3% (m/v) empregando a preparação enzimática LKM. Os resultados
obtidos, mostraram pequena variação na formação de ácidos graxos. O pH do meio
reacional aumentou até 8,4, não alterando significativamente o pH do ótimo da
enzima. Esses dados sugerem que compostos presentes no soro podem reagir com o
NaHCO3, influenciando negativamente a atividade lipolítica da
lipase. Estudos serão realizados para detectar possíveis compostos que possam
inibir a atividade enzimática.
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|
Figura 1.
Hidrólise do efluente pela lipase LKM.
|
Figura 2.
Hidrólise do efluente pela lipase LPP.
|
LKM- Lipase pancreatina Kin Master
LPP- Lipase pancreática Sigma
Como esperado, o aumento da
concentração de agente emulsificante de 3% m/v (ensaios 2 A, B) para 7%p/v
(ensaios 6 A, B), não correspondeu a aumentos significativos de porcentagem de
hidrólise. Agentes emulsificantes têm sido sistematicamente empregados em
dosagens de atividade lipolítica quando se utilizam triacilgliceróis de cadeia
longa como substratos. Considera-se,
geralmente, que os agentes emulsificantes, especialmente a goma arábica,
não interferem nos ensaios de hidrólise de lipídeos pela ação das lipases. Tiss
et al. (2002) observaram um efeito de
inibição da goma arábica na hidrólise de ésteres trioctanóicos, com a
utilização de lipases de fontes microbiana e animal. Esses autores sugeriram
que compostos tensoativos presentes nas formulações de goma arábica podem ser
responsáveis pelo efeito de inibição em lipases. Essa inibição pode ser
associada ao efeito de dessorção da lipase na interface água/óleo, pois a goma
arábica consiste, principalmente, de cadeia de polissacarídeos, incluindo
unidades de ácido glicurônico (Whistler, 1993). Na sua forma ionisada, os
grupos carboxil do ácido glicurônico estão desprotonados e, conseqüentemente,
conferem à interface da emulsão uma carga global negativa. A repulsão
eletrostática de lipases de pâncreas na interface por cargas negativas dos sais
de bílis, presentes nessas preparações, é um outro mecanismo de inibição de
lipases (Borgström, 1975). Goma arábica contém, em sua composição, açúcares
(D-galactose, L-arabinose, ácido D-glicurônico) e 2% de proteínas (prolina,
hidroxiprolina e serina) (Tiss et al.,
2002).
O efeito dos íons cálcio na
atividade de lipases é considerado benéfico, sendo capaz de alterar a
conformação da enzima, ou seja, íons cálcio agem como co-fator da lipase
promovendo um aumento de sua atividade catalítica (Sharma et al., 2001). É sugerido que o cálcio reduz a acidez livre
produzida durante a hidrólise pela formação de sabão de cálcio insolúvel,
permitindo o prosseguimento da reação hidrolítica. A necessidade do cálcio, na
presença de sais biliares e´, provavelmente, para compensar a repulsão
eletrostática criada entre a enzima e grupos carboxílicos dos sais biliares
(Shahani, 1975). A influência da suplementação de substratos com CaCl2 (ensaios
8A, B) na formação de ácidos graxos pela hidrólise enzimática foi pouco
significativa, provavelmente devido a presença de íons cálcio no meio
reacional, tornando desnecessário a sua utilização no meio reacional. Algumas
fontes prováveis de íons cálcio incluem: o próprio efluente (efluentes de
indústrias de derivados lácteos são ricos em íons cálcio) e goma arábica, cuja
formulação contém diversos íons, tais como cálcio, magnésio e potássio.
3.3. Caracterização do Efluente Tratado com
as Preparações de Lipases
Nas amostras de efluentes, tratadas
enzimaticamente nas condições empregadas nos ensaios 2 A,B por 24 h, foram
também determinadas as concentrações de glicerol, proteína e DQO.
Com relação a concentração de
glicerol formado foi verificado um aumento pouco significativo, em relação às
concentrações iniciais. Este fato pode ser relacionado com a fonte de lipase
utilizada (pancreática). As lipases, de fonte animal, são lipases 1,3
específicas que hidrolisam, preferencialmente, ácidos graxos nas posições 1 e 3
nas moléculas de triacilgliceróis, podendo levar ao acumulo de concentrações
significativas de monoacilgliceróis no meio reacional (Benzonana e Desnuelle,
1965). Por outro lado, a composição dessas preparações de lipases pode conter
também esterases, as quais hidrolisam os monoacilgliceróis, liberando glicerol
e uma molécula de ácido graxo. Verifica-se na Tabela 3, que a concentração de
glicerol formado pela lipase LPP foi similar a obtida pela lipase LKM, o que
está de acordo com as concentrações de ácidos graxos formados por essas
preparações enzimáticas.
Tabela 3: Parâmetros de caracterização
do efluente tratado com as preparações de lipases.
|
Lipases
|
Glicerol
(%)
|
Ácidos Graxos (mM/mL)
|
Proteína
(mg/mL)
|
DQO
(mg/L)
|
||||
|
|
0 h
|
24 h
|
0 h
|
24 h
|
0 h
|
24 h
|
0 h
|
24 h
|
|
LKM
|
2,74
|
3,55
|
23,5
|
69,5
|
3,15
|
0,30
|
113.000
|
110.000
|
|
LPP
|
2,76
|
3,59
|
20,5
|
71,4
|
2,40
|
0,20
|
113.000
|
111.000
|
LKM- Lipase pancreatina Kin Master
LPP- Lipase pancreática Sigma
Com relação ao teor de proteínas,
a lipase LKM, adquirida no mercado nacional apresentou uma maior redução quando
comparada com a lipase LPP, de procedência internacional, devido provavelmente
a elevada atividade de protease contida nessa preparação (Boletim Informativo
Kin Master, 2000), degradando mais facilmente os componentes orgânicos
proteicos presentes no efluente.
Lipases pancreáticas têm uma
massa molecular de aproximadamente 50KDa e são normalmente isoladas de pâncreas
ou biles de animais (porco). Por esta razão, são preparações geralmente
impuras, contendo outras hidrolases, como esterases, tripsina, proteases, entre
outras (Kazlauskas e Bornscheuer, 1998). As enzimas de fabricação nacional
apresentam um limitado grau de pureza, o que diminui o seu custo e não
interfere no processo, tendo em vista que na degradação dos lipídeos presentes
em efluentes não é requerido um elevado grau de hidrólise (maior que 90%). Além
disso, a presença de outras enzimas contaminantes (proteases, amilases) é
benéfica ao processo, tendo em vista que os efluentes das indústrias de
derivados lácteos contem, além de gorduras, altos teores de proteínas
provenientes do leite (caseína) e carboidratos como amido, utilizado na
preparação de doces à base de leite e iogurtes.
A redução do teor de DQO foi pouco
significativa, com o tratamento enzimático, devido a alta concentração de
lipídeos, presente no efluente utilizado. Elevadas concentrações de lipídeos
(0,8 a 1,2 g/L) diminui a eficiência de remoção de DQO (Leal et al., 2002). Apesar da pequena redução
de DQO constatada, o tratamento enzimático foi bastante satisfatório,
promovendo a hidrólise de lipídeos e proteínas presentes no efluente testado
neste trabalho. Testes de biodegradabilidade serão ainda realizados para
avaliar o impacto do tratamento enzimático no
tempo de permanência do efluente nas lagoas de estabilização anaeróbias.
Ressalta-se que o custo da lipase pancreatina (LKM) é 5 vezes inferior ao preço
praticado no mercado da distribuição da lipase fornecida pela empresa Sigma
(LPP).
4. CONCLUSÕES
A
formação de ácidos graxos foi favorecida para efluentes emulsificados com goma
arábica (3% p/v), com pH ajustado com solução NaOH 1M e na ausência de CaCl2.
Apesar dos graus de pureza diferentes, as preparações de lipases LKM e LPP
demonstraram desempenhos similares quando usadas na concentração de 3mg/mL.
Ambas enzimas hidrolisaram eficientemente os lipídeos e proteínas existentes no
efluente, entretanto a concentração de matéria orgânica presente no efluente
não foi significativamente reduzida, provavelmente devido ao alto teor de
lipídeos no soro de leite. Considerando que a hidrólise de lipídeos é a etapa
determinante na digestão anaeróbia, o tratamento proposto poderá auxiliar na
redução do tempo de retenção hidráulica nas estações de tratamento de
efluentes. A lipase disponível no mercado nacional ofereceu o melhor
custo/benefício, sendo selecionada para realização de experimentos subseqüentes
para avaliação do impacto do tratamento enzimático nesses efluentes, por meio
de testes de biodegradabilidade.
Agradecimentos: Ao Prof. Dr. Ismael
Maciel Mancilha pela obtenção do soro, utilizado como efluente referencial das
indústrias de derivados lácteos, a empresa Kin Master pela doação da amostra da
lipase pancreatina e ao programa CT-Hidro CNPq, pelo suporte financeiro.
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